terça-feira, 26 de abril de 2011

Capítulo 2 - Carne Vermelha e Vinho Tinto

São dezessete horas quando o celular dispara o alarme. Levanto-me lentamente. Sinto ainda um vestígio do gosto de ferro em minha língua.

As cortinas pesadas do meu apartamento escondem os últimos fachos de sol. A hora de ir trabalhar está chegando. Mas nem todos os vampiros precisam trabalhar. Com o passar do tempo, eles acumulam uma significante fortuna. Mas eu sou caçula desta espécie. Ainda estou engatinhando. Todavia, já percebi ser muito boa no que faço. Já tenho o meu próprio apartamento. Melhor do que dormir dentro de um caixão. Poucos mantêm ainda esta tradição, afinal, há séculos não existiam películas protetoras para vidros, muito menos cortinas blecaute.

Como trabalho a um quarteirão de onde moro, sempre vou caminhando. Observando cada pessoa que passa ao meu lado ou do outro lado da rua. Sou supervisora em uma empresa de telemarketing, mas por pouco tempo. Os meus planos são mais ambiciosos, só que, infelizmente, ainda não disponho de dinheiro em caixa suficiente. Dinheiro honesto? Digamos que, seus donos não teriam como usá-los no lugar para onde foram. Sendo assim, garanto sua utilidade e seus rendimentos em prol de uma boa causa: a minha causa.

Aqui no meu trabalho, tenho que ser a mais sutil dentre todos. Não posso macular minha vida humana, nem causar nenhuma desconfiança. Mas juro, que é necessário um esforço descomunal ver tantos pescoços desnudos, ouvir todos os corações cadenciados feito bateria de escola de samba e cheiros... Cheiros diferentes e deliciosamente instigantes.

Na rotina dos horários, volto para casa no final do expediente. Sempre tendo que antes, driblar um engraçadinho que insiste em acompanhar-me até o meu apartamento. Minha vontade mesmo, já a esta altura, é empurrá-lo contra a parede, puxar firme em seus cabelos inclinando sua cabeça para o lado e abocanhar de uma só vez o seu pescoço. Nunca imaginei que eu pudesse ser tão forte. Respiro fundo e resisto. Sorte a dele.

É quase meia noite. Meu relógio biológico me põe em alerta total. Um trovão anuncia a chuva. Hoje a noite promete.

Minutos mais tarde chego a um café. Musica ambiente, gente bonita conversando, vida inteligente que circula pela madrugada. Sento-me sozinha em uma mesa bem ao fundo do estabelecimento. E, misturado ao cheiro de capuccino, sinto um insalubre odor de carne podre. Minhas pupilas se dilatam e minha pele fria se arrepia. Outro vampiro entrara na cafeteria.

_Boa noite! – cumprimenta-me educadamente. _Posso me sentar?

_Infelizmente não posso impedi-lo. Mas não sou obrigada a partilhar do mesmo ar que você respira.

_Calma garota! Não sou teu inimigo. Mas acho bom você ficar sentadinha ai.

Naquele momento não via outra saída. Permaneci sentada, fazendo cara de quem iria obedecê-lo. Mas na verdade, não queria era chamar a atenção para mim, de forma grotesca.

_Meu nome é Teodoro, mas você pode me chamar de Teo. – ele dizia, enquanto tentava segurar a minha mão.

_Pouco me interessa como você se chama. E, por favor, não me toque. – contestei, retirando a mão.

_Não seja grosseira Valentina. – disse ele, surpreendendo-me. Como ou de onde ele me conhecia? _Eu sei quem é você e também sei quem é aquele que você busca.

Neste instante, toda a minha vontade de meter-lhe a colher que estava sobre a mesa em sua garganta até sufocá-lo, foi momentaneamente substituída pela curiosidade. Assim, pensei comigo mesma: te deixarei viver por mais algumas horas.

Tão bom quanto saciar a fome com o sangue e a carne humana, era a sensação de estraçalhar outro vampiro. Os dedos perfurando a pele morta e desfiando a carne tal qual tecido velho e apodrecido. Já o gosto não era apetitoso. Era enjoativo feito queijo cheddar com maionese e amargo feito jiló ensopado. Talvez por isso, muitos ainda viviam. Já que a lei que a milênios perdurava, era a de que se um vampiro mata outro, deve devorá-lo. E eu, definitivamente, não tinha estômago para mastigar um pedaço que fosse da carne daquele sujeito naquela noite chuvosa. Mas isso não significava que eu não pudesse mudar de ideia a qualquer momento.

Um comentário:

  1. Vou confessar que não sou fã de histórias de vampiros, mas fui atraído pela personagem, Valentina. Existe uma história atrás disso...Comecei a ler o capítulo 1 e tive que ler o seguinte. O captítulo 2 chamou a minha atenção mais ainda. Como disse antes, existe uma história por trás! Rsss

    Gostei muito da capa!!! Parabéns!!! Sucesso!!!!

    ResponderExcluir