sábado, 21 de maio de 2011

Capítulo 6 - Carne Vermelha e Vinho Tinto

Por um segundo perdida em meus pensamentos, pude perceber a gravidade da situação.  Não sabia o quanto Teodoro sabia sobre mim ou sobre o pergaminho, ou há quanto tempo ele vinha me seguindo. Só sabia que Santiago estava a minha procura. Sabia que não conseguiria fugir dele por muito tempo, mas ainda não estava preparada para reencontrá-lo. Teria que agir o quanto antes.
_Venha! Precisamos sair daqui. – no ímpeto, levantei-me da cama e caminhei em direção da porta, mas quando saía, fui segurada por Teodoro.
_Calma! – ele me olhou assustado. _Espere um momento. Precisamos saber se é seguro sairmos agora. Ou você acha que somente eu a procurava?

O desatino momentâneo que o nome de Santiago me causou fez com que meu raciocínio se congelasse. Realmente não havia parado para pensar que, assim como Teodoro havia me encontrado, outros poderiam estar à minha procura.
_Você tem razão. – concordei, já maquinando alguma estratégia de fuga. Então, apanhei o travesseiro sobre a cama e arranquei-lhe a fronha, rasgando-a ao meio. Sobre a cabeça amarrei-a feito lenço. Já o travesseiro, amassei-o bem e o ajustei debaixo de minha blusa, criando uma falsa barriga de grávida. _Agora vamos. Você desce antes, distrai o atendente enquanto eu saio o mais rápido possível. – e assim fizemos. Sem muita dificuldade saímos do motel e, de braços dados para encenarmos um casal, caminhamos rapidamente por mais uns dois quarteirões, até encontrarmos um taxi. De lá, fomos direto para o meu apartamento.

Inquieta, não conseguia parar de andar de um lado para o outro em minha sala. Minha mente não assentava pensamentos e eu sabia que devia ser a mais racional possível neste momento. Só então percebi a cara pavorosa de Teodoro. Sua tez esvaecida, sua boca ressequida e recoberta por rachaduras sinalizavam seu estado doentio.
_Há dois dias que não me alimento. – disse ele, um pouco ofegante. _Não fazia outra coisa se não te seguir. Tinha de ter certeza de que era você quem eu procurava.

Ainda sem baixar guarda, fui até a cozinha e lhe trouxe uma bela garrafa de um Cabernet Sauvignon. Enchi exageradamente uma taça e lhe servi.
_Beba! – disse oferecendo-lhe um sorriso. _Ele tem o bouquet de um Bordeaux e o aveludado que só o sangue nacional é capaz de oferecer. – e sem ao menos respirar, Teodoro bebeu de toda a taça. Servi-me também do vinho e novamente enchi sua taça.
_Agora brindemos! – exclamei, já tendo em minha mente um plano alinhavado.
_Vamos brindar a quê? – Teodoro interrogou, sem perceber a maldade em meus pensamentos.
_Brindemos a nós dois e a essa amizade que está nascendo. – enunciei meio a contra gosto, fazendo as palavras descerem goela abaixo feito espinha de peixe engolida a seco, sem perder nem por um segundo, o sorriso terno e abrasador esculpido em meu rosto.

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