sábado, 23 de abril de 2011

Capítulo 1 - Carne Vermelha e Vinho Tinto

Faz três anos que isto tudo começou. Se alguém me contasse, com certeza eu não acreditaria. Meu nome é Valentina. Sou uma vampira. Você até pode achar um maior barato ser vampiro, mas eu lhe digo, por experiência própria: não há nenhum glamour em ser um vampiro. Vampiro nenhum brilha à luz do sol. O sol pode ser mortal para todos nós. Ele queima a pele ao ponto de incinerá-la. Com muita proteção até podemos circular durante o dia. Mesmo assim dói, dói demais quando o sol nos toca a pele. Mas do jeito que as coisas estão caminhando, em breve até os seres humanos estarão sujeitos ao mesmo mal que padecem os vampiros.

As histórias, os romances, tudo ilusão. Ser vampiro é sentir fome e sede, vinte e quatro horas por dia. É uma tortura. Por mais que tentemos resistir, é inútil. Sangue de outros animais até nos serve de placebo, mas somente a carne e o sangue humano nos saciam a fome.

Nossas noites não são poéticas quanto às de romances açucarados. Pele e sangue frios nos faz buscar calor de corpos quentes, que, antes mesmo do final da noite, tornam-se apetitosos banquetes noturnos.

Nada de alho, crucifixos ou água-benta. Tudo mentira. Nada disso mata um vampiro. Se quiser mesmo matar um vampiro, atravesse seu coração com uma estaca e arranque-lhe a cabeça. Como sei tudo isso? Precisei aprender muito rápido ou não estaria viva até hoje. Como lhe falei no inicio da história, me chamo Valentina, e sou uma vampira.

Já passa das cinco horas da madrugada e eu estou aqui, numa boate entupida de gente, música alta e luzes ofuscantes. Sentei-me num banquinho ao lado do bar. Pedi uma bebida forte, somente para fazer cena. Depois do sangue, apenas o vinho nos aguça o paladar.

Dezenas de homens e de mulheres me comem com os olhos. Minhas pernas bem torneadas chamam a atenção. Faço isso de propósito. Minhas roupas são sempre sensuais, nunca vulgares. Afinal de contas, quero atrair comida de boa qualidade. É assim que olhamos para os humanos, como num catálogo de carnes penduradas num açougue. Escolhemos carnes tenras, de ótima qualidade e sangue de uma boa safra.

Às vezes, até acho que sinto prazer em todas estas caçadas noturnas. Nesta busca pela presa ideal. Porém, é muito mais que isto: é uma questão de sobrevivência. Uma necessidade visceral de estar viva, sempre buscando a ínfima esperança de cura. Se é que ela existe de fato, ou não passa de parte da lenda já tão ecumênica e distorcida. Mas para isso, preciso de mais uma noite.

Então, ela me tira para dançar. Saída do meio de outras menos corajosas, a mulher se aproxima e encaixamos-nos coxa com coxa. E eles nos devoram com olhares fixos e baba no canto da boca. As mãos da fêmea vestida de preto se emaranham nos meus cabelos longos e vermelhos. Ela expira quente em meu pescoço. Posso ouvir seu coração bombear litros de sangue por todo aquele corpo, que transpirava uma fragrância adocicada. Mas minha fome era tão grande que, precisaria de mais para saciá-la. Estendo minha mão para que um dos homens nos acompanhe na dança. E ele vem com seu jeito Neandertal, se achando o último dos machos. E assim, dançamos os três, como se ensaiássemos o sexo que nossas mentes desejavam naquele momento.

Saímos da boate, entramos num carro, batemos a porta e partimos para a cama mais próxima. Nenhuma palavra trocada, apenas olhares, toques e saliva.

Vi que o céu enrubescia. E que a vontade não aguardaria por uma cama. Com o carro estacionado numa rua qualquer, pus a mesa para o banquete. Entre peles que se roçavam e línguas intrometidas, me servi com o prato principal da noite. Minhas presas morderam suas jugulares como dentes que perfuram uma pêra macia. E o sangue quente desceu-me goela a baixo feito o mais requintado dos vinhos. E enquanto o céu mantinha sua matiz avermelhada, desci do automóvel e caminhei até o ponto mais próximo de táxi. E assim, voltei para casa satisfeita, antes mesmo que o sol dissesse bom dia.

2 comentários:

  1. Ja gostei....vamos para o proximo!!! hehehehe

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  2. Gostei do começo da sua história :)
    Não pude ser tudo porque hoje está meio corrido pra mim, mas mais tarde eu volto para ler os outros capítulos. Já estou seguindo o seu blog.
    Se puder, da uma olhada lá no meu:
    http://www.gianninilara.blogspot.com/

    beijo

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