sábado, 21 de abril de 2012
Capítulo 11 - Carne Vermelha e Vinho Tinto
Acordei
subitamente, tendo como despertador o meu estômago, que não via comida, há nove
horas exatas. Eu hibernara o dia inteiro.
Levantei-me com calma. Cada
movimento parecia rasgar-me a pele. Sentia como se o tecido de minhas roupas,
fossem esfolar-me. Tudo ardia. Parecia que eu havia fritado ao sol.Despi-me com dificuldade e fui para o banheiro. Pus o chuveiro na temperatura fria e deixei cair sobre meu corpo uma ducha bem gelada. A água tocava minha pele e fervia. Logo o banheiro estava parecendo uma sauna.
Fiquei ali por alguns minutos, mas obtive um alivio quase que insignificante. Meu corpo ainda estava vermelho e a pele extremamente sensível. E, como se não bastasse, meu estômago ainda ecoava seu ronco de animal faminto.
Caminhei até a janela, abri as cortinas e espiei o movimento lá fora. Não poderia sair enquanto estivesse daquele jeito, mas precisava me alimentar. Foi quanto ouvi uma conversa exaltada do lado de fora do meu quarto. Uma discussão acalorada. Encostei o ouvido em minha parede e fiquei prestando atenção. Até que ouvi a porta bater. Fizeram-se alguns segundos de silêncio. E logo alguém começou a esmurrar a entrada do quarto.
_Abra esta porta! Deixa-me entrar. – a voz rouca e carregada de sotaque do lusitano tremulava de nervoso.
Às vezes me pegava pensando como são
as coisas: quantas oportunidades nos batem literalmente à porta e nós, com
nossa estupidez racional ou orgulho imbecil, as deixamos escapar de forma
ignóbil. Por medo, por insegurança ou o pior, por nos preocupar com o que as
outras pessoas pensarão. Realmente eu não tenho o menor orgulho em ter sido
humana um dia. Criaturas estúpidas. Mas, voltando ao baticum, que prosseguia na
porta ao lado, percebi que, mesmo não pedindo serviço de quarto, o meu jantar
acabara de chegar. Só estava batendo na porta errada.
Apaguei a luz do meu quarto e acendi
o abajur sobre o criado mudo. Puxei novamente as cortinas, deixando pouca luz,
que vinha da rua, entrar no ambiente, e, ainda completamente nua, abri a porta
do meu dormitório.
_Boa
noite! – disse, cheia de malícia. _Algum problema? Posso ajudá-lo?
O português imediatamente parou de gritar
pela namorada e esmurrar a porta. E ficou ali, com a mão fechada e a boca
aberta, a me olhar estupefato. Não conseguia balbuciar nenhuma palavra. E,
assim, meio catatônico, caminhou em minha direção.
_Venha!
Entre! – convidei, estendendo-lhe a mão. Ele olhou para os lados, nervoso. Com
a mão, afrouxou o nó da gravata. E finalmente conseguiu dizer alguma coisa._Não posso. Minha mulher está no quarto ao lado.
Seus olhos me comiam com a fome de quem jejua na quaresma. Então insisti.
_Pelo que estou vendo, ela não vai sentir a sua falta hoje.
_Nós tivemos uma pequena rusga. Nada demais. – justificou. _Daqui a pouco tudo volta às boas.
_Então, enquanto ela se acalma em seu quarto, por que você não entra um pouco e me faz companhia? – segurei na ponta de sua gravata e fui puxando-o para dentro. Não demonstrou nenhuma resistência, apenas lançou alguns olhares perdidos para trás, verificando se mais ninguém o via adentrar ali. Também fiz o mesmo, mas minha intenção era, de que ninguém mais o visse sair lá de dentro. E com o pé, fechei a porta.
segunda-feira, 16 de abril de 2012
Capítulo 10 - Carne Vermelha e Vinho Tinto
Foi
há uns três meses atrás, enquanto estrangulava mais um vampiro fedorento, que
se interpunha entre minha refeição, um belo espécime masculino no furor dos
seus hormônios, e eu, que ouvi entre um engasgar e outro, meio que abafado pelo
sangue que voava de sua boca junto à saliva, o suposto paradeiro da segunda
parte do pergaminho perdido. A princípio, julguei ser apenas uma saída
desesperada em prol da própria vida. Podia ser uma mentira criada no desespero.
Tudo para manter a cabeça presa ao pescoço.
Ainda dentro do taxi, calcei um par de luvas e cobri a cabeça com um grande chapéu de aba preta, que trazia em minha mala. Fiz questão de trazê-la ao meu lado, no banco do passageiro, e não no porta-malas do carro.
O dia não estava frio, mesmo estando nublado. Toda aquela minha roupa poderia causar estranheza aos olhares alheios. Sendo assim, chegando ao hotel, não perdi tempo, fui logo desembarcando e invadindo a recepção. Segundos depois, já estava chegando ao meu quarto, tendo minha mala carregada por um belo rapaz sorridente. Ele educadamente abriu a porta para que eu entrasse, em seguida, deixou minha mala ao lado da belíssima cama king size.
Coitado do rapaz, mal podia imaginar o que se passava em minha cabeça. O que eu queria mesmo, naquele momento, era empurra-lo sobre aquela cama convidativa, rasgar seu uniformezinho ridículo com os dentes, o deixando nu em pelo, e usa-lo pelo resto do dia até exaustão. E, quando chegasse à noite, me banquetear com seu sangue em ebulição, já que o restante de seus líquidos se teria esvaído.
_Que merda! – desabafei, me jogando de costas sobre o macio colchão. Entre o meu querer e o precisar, sabia que o segundo sairia ganhando. Meu corpo precisava descansar. Já havia feito proezas demais para um único dia. Sentia minha pele formigar. Daria tudo para dormir em um caixão neste momento. Boa noite.
_Juro
que é verdade! – exclamou desesperado, pondo quase um palmo de língua para fora
e respirando ofegante o vampiro. _Não sei se é apenas uma lenda toda a história
em torno do pergaminho. Ninguém nunca conseguiu juntar as três partes para
descobrir. Ou melhor, dizem que apenas um vampiro fez esta proeza. Mas eu ouvi
dizer, que parte deste artefato, se encontra do outro lado do mundo, nas mãos
de um poderoso vampiro.
_E
quem lhe contou tal informação? – perguntei, afrouxando mais as mãos em torno
da goela daquela criatura insignificante.
_Não
sei... Não sei dizer ao certo. – gaguejou. _ Mas eu ouvi alguns vampiros
comentando. É verdade! Pode acreditar.
_E
o nome deste vampiro tão poderoso, você saberia me dizer?
_Sim,
sim... Eu digo. Mas por favor, não me mate. Eu imploro. – naquele momento, até
cheguei a acreditar em suas palavras, já que o pobre coitado tremia mais que
gelatina no prato.
_Tudo
bem. – larguei o pescoço do estupor e o deixei respirar mais tranquilamente.
_Agora me diga o nome.
_Winkelmann.
Lord Willian Winkelmann. – disse, ainda gaguejando e cuspindo um pouco de
sangue. _Ele é um milionário e mora em Londres. Dizem que é um homem muito mal
e excêntrico. Só que isso pra mim, é sinônimo de vampiro. Com certeza este
magnata é um chupa sangue feito você e eu.
_Não!
Eu não sou feito você! – arremessei-o para longe com um chute. _Possuo um
objetivo maior do que apenas chupar sangue. Mas isso não lhe diz respeito. Por
hora, satisfaça-se por permanecer vivo ou morto-vivo, como queira. Só não ouse
cruzar meu caminho novamente.
Minhas lembranças, naquele momento,
até me fizeram sorrir. Mas eu estava tensa ao ter que transitar durante o dia.
Qualquer exposição maior ao sol e eu viraria churrasquinho de Valentina.
Ainda dentro do taxi, calcei um par de luvas e cobri a cabeça com um grande chapéu de aba preta, que trazia em minha mala. Fiz questão de trazê-la ao meu lado, no banco do passageiro, e não no porta-malas do carro.
O dia não estava frio, mesmo estando nublado. Toda aquela minha roupa poderia causar estranheza aos olhares alheios. Sendo assim, chegando ao hotel, não perdi tempo, fui logo desembarcando e invadindo a recepção. Segundos depois, já estava chegando ao meu quarto, tendo minha mala carregada por um belo rapaz sorridente. Ele educadamente abriu a porta para que eu entrasse, em seguida, deixou minha mala ao lado da belíssima cama king size.
_Não
abra as cortinas, por favor! – gritei, assim que o mensageiro esboçou o
movimento para abri-las. _Vou aproveitar para descansar um pouco. Melhor que
elas permaneçam fechadas, obrigada.
_Se
assim prefere, senhora. – sem perder o sorriso, caminhou para a porta do
quarto. _Se precisar de mais alguma coisa, é só chamar. Com licença.
Coitado do rapaz, mal podia imaginar o que se passava em minha cabeça. O que eu queria mesmo, naquele momento, era empurra-lo sobre aquela cama convidativa, rasgar seu uniformezinho ridículo com os dentes, o deixando nu em pelo, e usa-lo pelo resto do dia até exaustão. E, quando chegasse à noite, me banquetear com seu sangue em ebulição, já que o restante de seus líquidos se teria esvaído.
_Que merda! – desabafei, me jogando de costas sobre o macio colchão. Entre o meu querer e o precisar, sabia que o segundo sairia ganhando. Meu corpo precisava descansar. Já havia feito proezas demais para um único dia. Sentia minha pele formigar. Daria tudo para dormir em um caixão neste momento. Boa noite.
sábado, 14 de abril de 2012
Capítulo 09 - Carne Vermelha e Vinho Tinto
Seriam
mais ou menos oito horas de voo do Brasil a Portugal. Apenas uma mala entulhada
de roupas. A saída às pressas não me dera tempo para organizar nada. Documentos
e passaporte e todo o dinheiro que já havia separado em casa, estava tudo em
minha valise de mão. Botas, calça jeans e um grosso e comprido casaco, era o
que eu vestia. Além da echarpe sobre a cabeça e os estilosos óculos escuros. Tudo em prol da proteção da minha pele
sensível ao sol. Chegaria durante a manhã à terra de Cabral.
A viagem estava tranquila. Praticamente todos os passageiros dormiam e eu, aproveitava o silêncio para repensar meus planos, já que não contava com essa fuga repentina.
Uma viagem era certa, mas não para Portugal e não naquele momento. Mas já que não havia como mudar os acontecimentos, eu precisava me virar da melhor forma possível. Ao chegar a Portugal, me hospedaria por alguns dias e, após fazer meus devidos contatos, partiria de lá para Londres, local onde deveria ir desde o principio.
Não tendo muito que fazer no momento, decidi descansar um pouco. Sentia meu estômago começar a revirar, mas seguraria a fome o quanto pudesse. Não seria muito prudente me arriscar naquele momento.
Do sono leve acordo, ao ser educadamente tocada no ombro pela comissária de bordo. Ela oferecia aperitivos durante o voo. Recusei sorridente, sem conseguir despregar os meus olhos do seu pescoço esguio, envolto num lenço vermelho, que completava o elegante uniforme da empresa aérea. Minha boca salivou, como se à minha frente alguém cortasse ao meio um suculento limão. Acompanhei-a com os olhos até o final do corredor da aeronave. Olhei em meu relógio e vi que em poucas horas o avião pousaria. Já dava para ver o céu clarear pela janela. Então, me levantei e caminhei em direção ao banheiro, passando por ela e, fazendo questão de que me visse entrar no reservado. Lá permaneci por alguns minutos, sabendo que em breve todos deveriam estar assentados em suas poltronas e com os cintos de seguranças bem travados.
_Com licença! – ela diz, batendo na porta. _A senhora está bem? Precisa de ajuda?
_Estou um pouco enjoada! – respondo.
_Vamos pousar em alguns instantes. A senhora precisa retornar ao seu lugar.
Abri a porta do banheiro e simulei estar meio tonta, sentando-me novamente no sanitário.
_Venha! Vou ajudá-la a voltar ao seu assento. – disse a comissária, entrando também no banheiro. Segurando com cuidado em meus braços, ela ajuda-me a levantar e, mais uma vez, finjo ter uma tonteira e sou por ela amparada.
_Nossa! Estou muito tonta. Se não fosse você eu teria me esborrachado no chão.
_Não precisa agradecer. Estamos aqui pra ajudá-la. – respondeu, quase que como num roteiro. Uma fala imposta pela empresa e decorada à exaustão.
_Acho que já estou um pouco melhor. – respiro profundamente e sorrio agradecida. _Você foi um anjo. – viro-me e suavemente beijo-lhe a face. Ela me olha surpresa, mas sorri sem graça. E quando ela ensaia sair do banheiro, puxo-a com força e lhe cubro a boca e, em seguida, tranco novamente a porta do banheiro.
Minutos depois, o avião pousa sem o menor problema. O desembarque é tranquilo. O céu nublado me deu um pouco mais de segurança para sair. E, apesar de estar um pouco quente, precisava me cobrir bem.
No saguão do aeroporto e já de posse de minha mala, caminhei para a saída entre turistas que iam e viam. Até perceber um tumulto, seguido de um corre-corre ao som de sirenes. O zum-zum-zum era muito familiar. Senti-me no Brasil. Não só pelo idioma, mas pelo boca a boca das pessoas, a troca rápida de informações. Então, aguçando meus ouvidos, pude entender o que as pessoas falavam. Uma comissária de borda havia sido encontrada morta no banheiro da aeronave. E mais, com uma grande mordida no pescoço.
_Pobre moça! – pensei auto, depois sorri e chamei um taxi.
Capitulo 08 - Carne Vermelha e Vinho Tinto
Um
olho de cada vez, Teodoro foi abrindo. Sua testa latejava. O lençol amarelo,
sobre a cama, estampava sob sua cabeça uma grande mancha vermelha. O corte em
sua têmpora vertia lentamente o quase escasso sangue do corpo daquele vampiro.
_Você
é realmente um completo idiota! – os olhos ainda embaçados de Teodoro, aos
poucos foram vendo ganhar contornos definidos naquele corpo esguio sentado à
beira da cama._Diana! – finalmente ele reconheceu o rosto pálido, que também se escondia entre a nauseabunda fumaça de um cigarro. _Acho que empatamos, ou você não vê que ela já fugiu daqui?
Saltando sobre a cama, a vampira Diana golpeia o corpo de Teodoro com um dos pés, apertando-lhe o pescoço.
_Pra sua sorte, estou proibida de lhe matar. Porém, pelo tanto de sangue que já despejou deste corpo ignóbil, não creio que terá força suficiente para sair deste pardieiro. Mas se por um descuido da natureza isto acontecer, procure ficar longe, bem longe de mim. – Diana desce da cama, dá uma última tragada no cigarro, e atira a guimba sobre o lençol. A brasa num instante queima o tecido fino, levantando fumaça do colchão em chamas. E ela caminha calmamente em direção à saída, enquanto ainda meio tonto Teodoro espanca a cama, tentando apagar o fogo.
_Você se acha muito esperta, mas não vai capturá-la. – ele grita, estapeando o colchão e apagando o pequeno foco de incêndio. _Não vai mesmo... Não mesmo. – sussurra, caindo novamente sobre a cama, quase exaurido de forças.
Enquanto saía do apartamento de Valentina, Diana fazia uma importante ligação.
_Ela conseguiu escapar... Sim, como imaginávamos, Teodoro estava com ela. Mas foi deixado para trás também. Com certeza ele não tem a menor ideia de para onde ela terá ido. – Diana chama um táxi, enquanto fala ao celular. _Aguardo suas ordens. – entrando no veículo, ela se despede da pessoa do outro lado da linha.
Bem mais tarde, longe dali, entre pessoas que veem e que vão, de um lado para o outro, os saltos daquele belo par de botas, estalam sobre o piso frio do aeroporto internacional do Rio de Janeiro. Uma voz feminina anuncia os embarques e as plataformas. Malas são arrastadas, passagens verificadas, voos cancelados. Mas ela embarca para algum lugar. Primeira classe.
Dentro do avião, no conforto de sua cadeira, ela aguarda pacientemente a aeronave levantar voo.
_Com licença, a senhora deseja alguma bebida? – já durante o voo a aeromoça oferece serviço de bordo.
_Por enquanto não, obrigada! – retirando por um momento a echarpe que lhe cobria os longos cabelos vermelhos, Valentina agradece.
_Caso deseje alguma coisa, basta me chamar. – diz educadamente a jovem aeromoça, de tez bem corada e lábios delicados e coloridos com discrição.
_Não se preocupe. Com certeza a chamarei assim que precisar. – responde maliciosa a vampira, ajeitando novamente a echarpe sobre sua cabeça, colocando seus grandes óculos escuros e maquinando algo em sua mente torpe.
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