sábado, 11 de junho de 2011

Capítulo 07 - Carne Vermelha e Vinho Tinto

Acordei por volta das onze horas. Lá fora o tempo estava nublado e fazia frio.  Pude olhar pela janela o dia sombrio, onde o sol se escondia detrás da grossa camada de nuvens arroxeadas. Teodoro praticamente hibernava, jogado sobre algumas almofadas, escondido atrás do sofá da sala.
Voltei ao meu quarto e, mais uma vez trancando a porta, fui até o guarda-roupa onde, na terceira gaveta, pude averiguar, dentro do meu pequeno baú de madeira, a segurança do pedaço rasgado de um antiguíssimo pergaminho.
_Preciso tirá-lo daqui. – pensei comigo mesma. _Assim como o Teodoro me encontrou, não será difícil para Santiago fazer o mesmo. Tenho de encontrar o segundo fragmento, só então vou atrás dele para arrancar-lhe o terceiro pedaço.

Era fato que havia outros vampiros em minha busca. Santiago faria de tudo para ter o pergaminho que lhe roubei. Mas uma coisa me intrigava: será que ele já teria encontrado a outra parte perdida do pergaminho? Necessitava saber até onde Teodoro sabia a respeito dos escritos. Mas agora eu tinha de descansar, pois à noite, o trabalho me esperava.
Meio a contragosto, fui trabalhar deixando Teodoro em meu apartamento. Era arriscado demais deixá-lo passeando pela cidade.
Olhos zombeteiros observaram-me assim que entrei na empresa. Os mesmos que me acompanharam durante todo o trajeto. Caminhei naturalmente entre os outros funcionários pelo hall de entrada e direcionei-me ao corredor dos sanitários.
 Não demorou muito para que ela me seguisse e entrasse no banheiro também. Suas botas pretas de salto sobre o piso frio davam o alarme. Disfarcei retocando a maquiagem. Ela retirou seu casaco branco e o descansou sobre a pia, ajeitou os curtos cabelos platinados, cuja franja assimétrica caia sobre o rosto. Uma boca vermelha e convidativa.
_Vamos poupar o seu e o meu tempo. – ela disparou. _É só entregar-me o pergaminho que vou embora. Simples assim.
_Não sei do que você está falando. Nem lhe conheço! – contradisse, fugindo do assunto.
_Paciência não é uma de minhas virtudes, já vou avisando. – retrucou segurando firme em meu braço. Neste momento outra mulher entra no banheiro.
_Então já vou lhe avisar: não me espere para o jantar! – empurrei a estranha sobre a mulher que acabara de entrar no banheiro, fazendo-as desequilibrarem-se e caírem ambas ao chão. Neste meio tempo, pulei por sobre elas e corri para fora do sanitário, puxando com muita força a porta, arrancando-lhe a maçaneta e trancando as duas mulheres lá dentro.

Entrei no primeiro táxi que encontrei na frente da empresa e disparei para casa. Lá chegando, corri imediatamente até meu quarto, peguei alguns documentos e os joguei dentro de minha bolsa, tudo acompanhada pelos olhos curiosos de Teodoro, que não entendera o que estava acontecendo, até que eu o expliquei.
_Seu nome é Diana. – disse ele num rompante assustado. _Ela é monstruosa. Não sei como você conseguiu escapar.
_Acho que ela não esperava que eu reagisse. Por isso a surpreendi. – cogitei. _Mas agora tenho que sair o mais rápido possível daqui.
_Com certeza! Precisamos fugir. Ela já sabe onde você mora ou não teria te seguido até o trabalho. É questão de minutos ela entrar por essa porta.
_Você tem razão! – concordei, puxando a gaveta e pegando o baú de madeira. O abri, pegando o pedaço de pergaminho. _Mas se é dele que ela veio atrás, deu viajem perdida.
_Nossa! Você está mesmo com um dos pedaços do pergaminho. – conclamou chocado. _Agora mesmo que precisamos fugir daqui!
_Mais uma vez você tem razão. – respondi. _Só errou em uma coisa... – Teodoro me olhou inquisidor. _EU FUGIREI DAQUI! – com firmeza segurei o baú de madeira, e com toda força de meu braço, acertei Teodoro em cheio com uma pancada em sua têmpora.

sábado, 21 de maio de 2011

Capítulo 6 - Carne Vermelha e Vinho Tinto

Por um segundo perdida em meus pensamentos, pude perceber a gravidade da situação.  Não sabia o quanto Teodoro sabia sobre mim ou sobre o pergaminho, ou há quanto tempo ele vinha me seguindo. Só sabia que Santiago estava a minha procura. Sabia que não conseguiria fugir dele por muito tempo, mas ainda não estava preparada para reencontrá-lo. Teria que agir o quanto antes.
_Venha! Precisamos sair daqui. – no ímpeto, levantei-me da cama e caminhei em direção da porta, mas quando saía, fui segurada por Teodoro.
_Calma! – ele me olhou assustado. _Espere um momento. Precisamos saber se é seguro sairmos agora. Ou você acha que somente eu a procurava?

O desatino momentâneo que o nome de Santiago me causou fez com que meu raciocínio se congelasse. Realmente não havia parado para pensar que, assim como Teodoro havia me encontrado, outros poderiam estar à minha procura.
_Você tem razão. – concordei, já maquinando alguma estratégia de fuga. Então, apanhei o travesseiro sobre a cama e arranquei-lhe a fronha, rasgando-a ao meio. Sobre a cabeça amarrei-a feito lenço. Já o travesseiro, amassei-o bem e o ajustei debaixo de minha blusa, criando uma falsa barriga de grávida. _Agora vamos. Você desce antes, distrai o atendente enquanto eu saio o mais rápido possível. – e assim fizemos. Sem muita dificuldade saímos do motel e, de braços dados para encenarmos um casal, caminhamos rapidamente por mais uns dois quarteirões, até encontrarmos um taxi. De lá, fomos direto para o meu apartamento.

Inquieta, não conseguia parar de andar de um lado para o outro em minha sala. Minha mente não assentava pensamentos e eu sabia que devia ser a mais racional possível neste momento. Só então percebi a cara pavorosa de Teodoro. Sua tez esvaecida, sua boca ressequida e recoberta por rachaduras sinalizavam seu estado doentio.
_Há dois dias que não me alimento. – disse ele, um pouco ofegante. _Não fazia outra coisa se não te seguir. Tinha de ter certeza de que era você quem eu procurava.

Ainda sem baixar guarda, fui até a cozinha e lhe trouxe uma bela garrafa de um Cabernet Sauvignon. Enchi exageradamente uma taça e lhe servi.
_Beba! – disse oferecendo-lhe um sorriso. _Ele tem o bouquet de um Bordeaux e o aveludado que só o sangue nacional é capaz de oferecer. – e sem ao menos respirar, Teodoro bebeu de toda a taça. Servi-me também do vinho e novamente enchi sua taça.
_Agora brindemos! – exclamei, já tendo em minha mente um plano alinhavado.
_Vamos brindar a quê? – Teodoro interrogou, sem perceber a maldade em meus pensamentos.
_Brindemos a nós dois e a essa amizade que está nascendo. – enunciei meio a contra gosto, fazendo as palavras descerem goela abaixo feito espinha de peixe engolida a seco, sem perder nem por um segundo, o sorriso terno e abrasador esculpido em meu rosto.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Capitulo 5 - Carne Vermelha e Vinho Tinto

Cinco de julho de 2009. Era meu aniversário e, como sempre, ninguém se lembrou. Mas já não fazia tanta diferença assim para mim. Era só mais um dia. Um pouco mais triste que os demais, mas somente mais um dia.

Eu acabara de sair do trabalho. Quer dizer, daquele empreguinho medíocre que eu exercia. Enfurnada numa sala empoeirada, separando e empilhando caixas de sapatos, para no final do mês ficar contando míseros trocados.

Era triste ter que voltar para casa e encarar um pai alcoólatra e uma mãe submissa. Essa era a minha vidinha cheia de clichês. E assim, caminhava devagar com a esperança de que, por encanto, ela pudesse mudar no meio do caminho. Mas eu não podia imaginar que seria naquele dia.

O céu pesado de nuvens e uma poeirinha de chuva que caia, deixava a noite mais sombria. As ruas praticamente desertas era um convite a um assalto. Mas isto ainda era raro no fim de mundo em que eu vivia, por isso caminhava tranquila, sem perceber que era seguida.

Foi só quando um casal, um pouco mais afoito, passou por mim em direção a uma rua mais escura, que despertei dos meus pensamentos. Caminhei mais alguns minutos e ouvi um grito. Um som meio abafado. Mesmo não dada a esses arroubos de boa samaritana, decidi voltar para ver o que estava acontecendo. Talvez a mocinha espevitada tivesse desistido de dar para o Don Juan de meia pataca.

Fiz a volta por uma rua paralela e cheguei ao outro lado do beco. A falta de iluminação publica fazia daquele lugarzinho um motel de beira de estrada. Mal podia ver um metro à minha frente. Pude somente perceber um vulto encostado na parede do muro. Então saquei o celular de minha bolsa e o liguei, para pode iluminar.

Tudo foi tão rápido quanto um piscar de olhos. No mínimo iluminar do aparelho, vi que um corpo estava estirado ao chão e, junto ao muro, uma bizarra figura abocanhava a jugular de um rapaz de calças arriadas.

Com olhos tão vermelhos quanto o próprio sangue de que se alimentava, a criatura me fitou enfurecida e, na mesma velocidade em que o meu coração disparara, de um salto, chegou até mim, tramando suas mãos enormes em meu pescoço.

Naquele segundo somente um pensamento veio em minha cabeça: morri.
_Solte-a! – ordenou uma voz forte que veio da parte mais escura do beco. A criatura me libertou e se voltou cheia de cólera sobre o homem que surgira de não sei onde. E como um zumbido de ventou ao pé do ouvido, a cabeça da criatura passou por mim e caiu no canto da rua, rolando pelos paralelepípedos até parar junto aos corpos do casal. Eu não conseguia me mover, apenas tremia.

O homem alto, vestido de terno e gravata, estende sua mão, agora banhada de sangue e apanha o meu celular, que ainda iluminava, mesmo que precariamente, o local. Pude ver seu rosto forte, de pele pálida, barba bem feita e seus olhos amarelados.

Ele se abaixa até o corpo decapitado, e com a ajuda do celular, busca algo nas roupas da criatura morta. Encontra um pedaço de papel rasgado e em seguida o mete em seu bolso. Levanta-se lentamente, segura na minha mão e me devolve o celular, vira-se e sai caminhando.
_Espera! – não sei se foi coragem ou insanidade momentânea. Segurei em seu braço e o pedi para não ir.
_Vá embora! Faça de conta que não viu nada do que aconteceu. Não quer ser chamada de louca, quer?
_Quem é você? Você é um vampiro? – gaguejei.
_Quanto menos você souber melhor será para você minha jovem.
_Hoje é meu aniversário. – balbuciei ainda tremula. _Me dê de presente esse seu poder! Me morda e me transforme. Não é assim que funciona?

Com força, ele me segura pelos cabelos e me apavora, arreganhando sua bocarra e suas presas em minha direção.
_Você não sabe o que está pedindo. Muitos já morreram tentando mudar o imutável. E você me pede para beber deste mal?
_Não o vejo como mal. E sim como uma fonte inesgotável de poder. – ele então me solta e sorri meio irônico.
_Lembre-se que não estou lhe dando de bom grado. – ele diz num tom quase melancólico. _Não o tomes como um presente de uma nova vida. Mas sim, como uma morte que se prolonga pela eternidade. – suas presas estão prontas para me morder.
_Espere! – eu peço hesitante e ele me olha satisfeito. _Morda-me, mas antes, me diga seu nome.
_Santiago. – foi o último som que ouvi antes de sentir as presas em brasa perfurarem meu pescoço, de sentir meu sangue saindo de mim com a velocidade de um pensamento e de meus olhos escurecerem mais do que aquela noite escura.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Capítulo 4 - Carne Vermelha e Vinho Tinto

Contei até dez para manter a calma e não voar no pescoço daquele estupor e arrancar-lhe de uma só vez a tão misteriosa informação. Mas não podia demonstra a minha insegurança diante dele.
_Conte logo, porque não tenho todo o tempo do mundo para perder aqui com você. – fiz como se pouco me interessasse no que Teodoro teria para me contar.
_Antes de dar com a língua nos dentes, preciso que você me prometa uma coisa? – Teodoro levantou-se da cama e mais uma vez verificou o movimento na rua através da janela. Estava visivelmente perturbado.
_Não sei em que eu poderia ajudar-lhe! – exclamei, arrancando dele uma reação um tanto execrada.
_Não se faça de desentendida! – apontou-me o dedo na cara com olhos enfurecidos. E em seguida se perdeu em pensamentos, caminhando pelo quarto de um lado para o outro, resmungando não sei bem o que. E só após olhar mais uma vez pela janela, voltou a dialogar comigo. _Promete que vai me ajudar! Eu sei que mesmo o ajudando, ele vai me matar! Ele mandou alguém me seguir. Ele vai me matar, eu sei. Ele disse que não, mas eu sei que vai.
_Ele quem? – interroguei já sem paciência.
_Santiago...

O som daquele nome fez meu corpo estremecer como há muito tempo não sentia. Minha boca ressecou e faltaram-me palavras. Fiquei estática a olhar nos olhos de Teodoro.
_Santiago? Você o encontrou em São Paulo? Como foi isso?
_Como te falei, foram encontradas seis pessoas mortas em São Paulo, mas na verdade, eram sete. – um pouco mais calmo Teodoro prosseguiu. _Eram todos meus amigos. Fomos atacados enquanto voltávamos para casa, depois de sairmos de uma festa. Algo bateu no meu carro, perdi o controle e rodei na estrada. O segundo carro acabou se chocando com o meu.
_E você não o viu atacando seus amigos?
_Não! Como na estrada os nossos celulares estavam sem sinal, eu e mais um amigo decidimos voltar alguns quilômetros e pedir ajuda num posto de gasolina próximo. Mas depois de alguns minutos caminhando, pudemos ouvir uns gritos e ver uma explosão ao longe. – Teodoro senta-se no chão, num dos cantos do quarto do motel. _Voltamos correndo, mas era tarde. Estavam todos mortos. Então das sombras ele apareceu. Tão rápido que não pude ver de onde, tão pouco socorrer o meu amigo, que se convulsionava enquanto tinha seu pescoço abocanhado e seu sangue sugado. Tentei correr, mas minhas pernas haviam paralisado de medo. A criatura depois de saciada arremessou o corpo sobre os veículos ainda em chama e veio em minha direção. Só consegui implorar por minha vida.
_Mas somente isso não justifica você ter sido transformado e não morto. – permanecia preocupada, até mais que temerosa.
_Sim, você tem razão. – ele confirma minha desconfiança. _Não sabia bem porque, mas ele tinha planos para mim.
_Planos? Quais planos?
_VOCÊ! – disse ele, me surpreendendo. _Ele havia nos observado durante toda a noite na festa e sabia que não éramos de São Paulo.
_Então é isso! Você está me espionando. – só então consegui entender o porquê de em alguns momentos me sentir sendo observada. Pude então reconhecer Teodoro em outros momentos durante minhas noites.
_Exatamente. Mas existem outros à sua procura, mas eu sou o melhor. – Teodoro parecia ter um instinto de caçador que nem ele mesmo conhecia até virar vampiro.
_E Santiago sabia disto. Por isso lhe transformou. – neste momento, meus medos começavam a criar forma. Meus planos teriam de ser alterados. Mas eu precisava saber por que Santiago estava atrás de mim. Será que ele desconfiava dos meus planos?
_Ele sabe que está com você! – Teodoro deixou escapulir entre os dentes. _E ele o quer de volta. Mas precisa te encontra primeiro.
_Não sei do que você está falando? – desconversei. O vampiro dispara uma risada de deboche.
_O pergaminho. Você tem parte do pergaminho. E ele o quer.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Capítulo 3 - Carne Vermelha e Vinho Tinto

Há menos de cinco minutos que eu o conhecera e já o odiava com veemência. Teodoro era um daqueles homens sem nenhuma qualidade. Do tipo que você olha e instantaneamente sente nojo. E como se não bastassem tantos predicados, o filho da mãe ainda era um vampiro. Mas apesar de toda sua empáfia, podia sentir o cheiro de medo exalar de sua pele.
_Você vai dizer o que quer ou vai ficar ai me olhando? – perguntei irritadiça.
_Este não é o melhor lugar pra gente conversar. – disse ele já se levantando da cadeira pouco confortável do café. _Vamos sair daqui. Venha comigo!
_E se eu não for o que vai acontecer? – retruquei.
_Você é uma mulher inteligente, Valentina. Por isso sei que virá! – exclamou dando de costas e seguindo em direção à saída do estabelecimento.

Seja lá quem for este sujeito, parecia saber muito a meu respeito. Isso me deixava em desvantagem. Por enquanto eu teria de engolir meu orgulho e segui-lo. Por enquanto!

A chuva fina que caía deixava a madrugada fria. Entre poças e lixo pelas calçadas, o segui sob as marquises. Paramos a duas quadras dali, numa rua pouco movimentada, em frente a uma placa de motel.
_Vamos subir! – com um sorrisinho de lado, Teodoro me indicou a entrada do motel. _Aqui poderemos conversar mais a vontade.

Aproximei-me daquela criatura estúpida, e sem a menor cerimônia ou delicadeza, apertei-lhe o saco, fazendo-o urrar.
_Sim, eu vou subir. – falei-lhe ao pé do ouvido enquanto ele gemia. _Mas se você quer permanecer com este pedacinho de músculo flácido entre as pernas, acho bom não tentar nenhuma gracinha. Ou você passará pela mudança de sexo mais rápida da história. Estamos entendidos?
Não sei se o que ouvi foi um sim, mas o gemido entre os dentes me pareceu uma afirmação.

Subi rapidamente as escadas de degraus estreitos e segui por um corredor mal iluminado. Ele me acompanhou com passos lentos e reclamando da dor.

O quarto quase claustrofóbico do motel até parecia limpinho à primeira vista. Mas o que eu queria mesmo, era saber o que dava tanta segurança para aquele sujeito? Que tipo de informação ele teria para mim?
_Vamos logo! Desembucha. – exclamei ansiosa, enquanto sentava-me na beirada cama. Teodoro caminhava de um lado para o outro nervoso.
_Acredito que você tenha ouvido falar dos assassinatos que aconteceram em São Paulo no mês passado? – perguntou-me, enquanto olhava preocupado para a rua, por uma abertura na persiana da janela. Disse que sim, apenas acenando com a cabeça e ele prosseguiu.
_Seis pessoas foram encontradas mortas e a polícia não tem nenhuma pista do assassino, nem a menor noção dos motivos do massacre. Pois bem, eu sei quem foi o responsável.
_E o que eu tenho a ver com isso?
_Você, nada! Sei que não foi você! – neste momento Teo sentou-se ao meu lado na cama, suspirando forte e encarando-me olho no olho. Havia um ar de satisfação e malícia em seu sorriso de canto de boca. _Mas adivinha? Eu estava lá e sei quem foi. E tenho certeza de que você vai adorar saber o seu nome.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Capítulo 2 - Carne Vermelha e Vinho Tinto

São dezessete horas quando o celular dispara o alarme. Levanto-me lentamente. Sinto ainda um vestígio do gosto de ferro em minha língua.

As cortinas pesadas do meu apartamento escondem os últimos fachos de sol. A hora de ir trabalhar está chegando. Mas nem todos os vampiros precisam trabalhar. Com o passar do tempo, eles acumulam uma significante fortuna. Mas eu sou caçula desta espécie. Ainda estou engatinhando. Todavia, já percebi ser muito boa no que faço. Já tenho o meu próprio apartamento. Melhor do que dormir dentro de um caixão. Poucos mantêm ainda esta tradição, afinal, há séculos não existiam películas protetoras para vidros, muito menos cortinas blecaute.

Como trabalho a um quarteirão de onde moro, sempre vou caminhando. Observando cada pessoa que passa ao meu lado ou do outro lado da rua. Sou supervisora em uma empresa de telemarketing, mas por pouco tempo. Os meus planos são mais ambiciosos, só que, infelizmente, ainda não disponho de dinheiro em caixa suficiente. Dinheiro honesto? Digamos que, seus donos não teriam como usá-los no lugar para onde foram. Sendo assim, garanto sua utilidade e seus rendimentos em prol de uma boa causa: a minha causa.

Aqui no meu trabalho, tenho que ser a mais sutil dentre todos. Não posso macular minha vida humana, nem causar nenhuma desconfiança. Mas juro, que é necessário um esforço descomunal ver tantos pescoços desnudos, ouvir todos os corações cadenciados feito bateria de escola de samba e cheiros... Cheiros diferentes e deliciosamente instigantes.

Na rotina dos horários, volto para casa no final do expediente. Sempre tendo que antes, driblar um engraçadinho que insiste em acompanhar-me até o meu apartamento. Minha vontade mesmo, já a esta altura, é empurrá-lo contra a parede, puxar firme em seus cabelos inclinando sua cabeça para o lado e abocanhar de uma só vez o seu pescoço. Nunca imaginei que eu pudesse ser tão forte. Respiro fundo e resisto. Sorte a dele.

É quase meia noite. Meu relógio biológico me põe em alerta total. Um trovão anuncia a chuva. Hoje a noite promete.

Minutos mais tarde chego a um café. Musica ambiente, gente bonita conversando, vida inteligente que circula pela madrugada. Sento-me sozinha em uma mesa bem ao fundo do estabelecimento. E, misturado ao cheiro de capuccino, sinto um insalubre odor de carne podre. Minhas pupilas se dilatam e minha pele fria se arrepia. Outro vampiro entrara na cafeteria.

_Boa noite! – cumprimenta-me educadamente. _Posso me sentar?

_Infelizmente não posso impedi-lo. Mas não sou obrigada a partilhar do mesmo ar que você respira.

_Calma garota! Não sou teu inimigo. Mas acho bom você ficar sentadinha ai.

Naquele momento não via outra saída. Permaneci sentada, fazendo cara de quem iria obedecê-lo. Mas na verdade, não queria era chamar a atenção para mim, de forma grotesca.

_Meu nome é Teodoro, mas você pode me chamar de Teo. – ele dizia, enquanto tentava segurar a minha mão.

_Pouco me interessa como você se chama. E, por favor, não me toque. – contestei, retirando a mão.

_Não seja grosseira Valentina. – disse ele, surpreendendo-me. Como ou de onde ele me conhecia? _Eu sei quem é você e também sei quem é aquele que você busca.

Neste instante, toda a minha vontade de meter-lhe a colher que estava sobre a mesa em sua garganta até sufocá-lo, foi momentaneamente substituída pela curiosidade. Assim, pensei comigo mesma: te deixarei viver por mais algumas horas.

Tão bom quanto saciar a fome com o sangue e a carne humana, era a sensação de estraçalhar outro vampiro. Os dedos perfurando a pele morta e desfiando a carne tal qual tecido velho e apodrecido. Já o gosto não era apetitoso. Era enjoativo feito queijo cheddar com maionese e amargo feito jiló ensopado. Talvez por isso, muitos ainda viviam. Já que a lei que a milênios perdurava, era a de que se um vampiro mata outro, deve devorá-lo. E eu, definitivamente, não tinha estômago para mastigar um pedaço que fosse da carne daquele sujeito naquela noite chuvosa. Mas isso não significava que eu não pudesse mudar de ideia a qualquer momento.

sábado, 23 de abril de 2011

Capítulo 1 - Carne Vermelha e Vinho Tinto

Faz três anos que isto tudo começou. Se alguém me contasse, com certeza eu não acreditaria. Meu nome é Valentina. Sou uma vampira. Você até pode achar um maior barato ser vampiro, mas eu lhe digo, por experiência própria: não há nenhum glamour em ser um vampiro. Vampiro nenhum brilha à luz do sol. O sol pode ser mortal para todos nós. Ele queima a pele ao ponto de incinerá-la. Com muita proteção até podemos circular durante o dia. Mesmo assim dói, dói demais quando o sol nos toca a pele. Mas do jeito que as coisas estão caminhando, em breve até os seres humanos estarão sujeitos ao mesmo mal que padecem os vampiros.

As histórias, os romances, tudo ilusão. Ser vampiro é sentir fome e sede, vinte e quatro horas por dia. É uma tortura. Por mais que tentemos resistir, é inútil. Sangue de outros animais até nos serve de placebo, mas somente a carne e o sangue humano nos saciam a fome.

Nossas noites não são poéticas quanto às de romances açucarados. Pele e sangue frios nos faz buscar calor de corpos quentes, que, antes mesmo do final da noite, tornam-se apetitosos banquetes noturnos.

Nada de alho, crucifixos ou água-benta. Tudo mentira. Nada disso mata um vampiro. Se quiser mesmo matar um vampiro, atravesse seu coração com uma estaca e arranque-lhe a cabeça. Como sei tudo isso? Precisei aprender muito rápido ou não estaria viva até hoje. Como lhe falei no inicio da história, me chamo Valentina, e sou uma vampira.

Já passa das cinco horas da madrugada e eu estou aqui, numa boate entupida de gente, música alta e luzes ofuscantes. Sentei-me num banquinho ao lado do bar. Pedi uma bebida forte, somente para fazer cena. Depois do sangue, apenas o vinho nos aguça o paladar.

Dezenas de homens e de mulheres me comem com os olhos. Minhas pernas bem torneadas chamam a atenção. Faço isso de propósito. Minhas roupas são sempre sensuais, nunca vulgares. Afinal de contas, quero atrair comida de boa qualidade. É assim que olhamos para os humanos, como num catálogo de carnes penduradas num açougue. Escolhemos carnes tenras, de ótima qualidade e sangue de uma boa safra.

Às vezes, até acho que sinto prazer em todas estas caçadas noturnas. Nesta busca pela presa ideal. Porém, é muito mais que isto: é uma questão de sobrevivência. Uma necessidade visceral de estar viva, sempre buscando a ínfima esperança de cura. Se é que ela existe de fato, ou não passa de parte da lenda já tão ecumênica e distorcida. Mas para isso, preciso de mais uma noite.

Então, ela me tira para dançar. Saída do meio de outras menos corajosas, a mulher se aproxima e encaixamos-nos coxa com coxa. E eles nos devoram com olhares fixos e baba no canto da boca. As mãos da fêmea vestida de preto se emaranham nos meus cabelos longos e vermelhos. Ela expira quente em meu pescoço. Posso ouvir seu coração bombear litros de sangue por todo aquele corpo, que transpirava uma fragrância adocicada. Mas minha fome era tão grande que, precisaria de mais para saciá-la. Estendo minha mão para que um dos homens nos acompanhe na dança. E ele vem com seu jeito Neandertal, se achando o último dos machos. E assim, dançamos os três, como se ensaiássemos o sexo que nossas mentes desejavam naquele momento.

Saímos da boate, entramos num carro, batemos a porta e partimos para a cama mais próxima. Nenhuma palavra trocada, apenas olhares, toques e saliva.

Vi que o céu enrubescia. E que a vontade não aguardaria por uma cama. Com o carro estacionado numa rua qualquer, pus a mesa para o banquete. Entre peles que se roçavam e línguas intrometidas, me servi com o prato principal da noite. Minhas presas morderam suas jugulares como dentes que perfuram uma pêra macia. E o sangue quente desceu-me goela a baixo feito o mais requintado dos vinhos. E enquanto o céu mantinha sua matiz avermelhada, desci do automóvel e caminhei até o ponto mais próximo de táxi. E assim, voltei para casa satisfeita, antes mesmo que o sol dissesse bom dia.